Planejamento estratégico em aeroportos: dos objetivos da concessão às metas de cada área
Shankar Cabus
8 minutos de leitura

Todo ano, a diretoria de um aeroporto define o que quer do ciclo: subir a satisfação do passageiro, manter os indicadores do contrato acima do padrão, aumentar a receita comercial, entregar as obras no prazo. O planejamento estratégico em aeroportos costuma começar bem, numa apresentação. O problema aparece semanas depois, quando cada área acompanha o seu pedaço numa planilha diferente e ninguém sabe dizer quanto falta para cada objetivo.
O que liga o objetivo da diretoria ao trabalho de cada equipe é o desdobramento: transformar cada objetivo em metas por área, com dono, prazo e um indicador que a operação mede. É isso que separa um plano que se acompanha de um plano que se apresenta uma vez por ano.
O que o contrato de concessão já decide
Num aeroporto concedido, parte do plano vem pronta. O contrato define indicadores, padrões e consequências, e a ANAC regula como eles são medidos e apresentados:
- A qualidade é medida todo mês. Pela Resolução ANAC nº 372/2015, os Indicadores de Qualidade de Serviço (IQS) são aferidos mensalmente, enviados à ANAC e publicados pela concessionária no próprio site, num relatório resumido.
- A qualidade pesa na tarifa. No contrato do bloco SP-MS-PA-MG, da 7ª rodada, o Fator Q dos aeroportos a partir de 5 milhões de passageiros por ano vai de 7,5% de decréscimo a 2% de bônus no reajuste. E o decréscimo de um indicador aumenta 50% quando ele passa pelo menos seis meses do período abaixo do padrão.
- O plano de qualidade é anual. A Resolução 372 pede o Plano de Qualidade de Serviço (PQS), entregue à ANAC todo ano antes do reajuste, com os padrões mínimos de serviço, o relatório dos IQS e um plano de ação. O mesmo contrato exige, ainda, um plano de ação anual para as áreas com indicador abaixo do padrão e para os problemas que chegam pelos canais de atendimento.
- A receita também está no contrato. O mesmo contrato põe no objeto da concessão a exploração eficiente do aeroporto, "de forma a obter Receitas Não Tarifárias".
Valores, indicadores e prazos mudam de um contrato para outro e, no mesmo contrato, conforme o movimento do aeroporto. Por isso, o primeiro passo do planejamento é ler o Anexo 2 do seu contrato, o Plano de Exploração Aeroportuária, junto com quem vai responder pelas metas.
Desdobramento de metas: do objetivo ao dono
Desdobrar é descer um nível de cada vez sem perder o fio. Um roteiro simples, com um exemplo:
- Objetivo. O que a diretoria quer no ciclo, numa frase. Por exemplo: o passageiro encontra a informação do voo sem precisar perguntar.
- Indicador. O número que mostra se o objetivo está acontecendo. Aqui, o IQS de facilidade de acessar informações de voos, que, no contrato do bloco SP-MS-PA-MG, entra no Fator Q dos aeroportos a partir de 5 milhões de passageiros.
- Meta. Valor e prazo: ficar acima do padrão do contrato em todos os meses do período, e não só na média do ano.
- Dono. Uma pessoa, com nome. Outras áreas contribuem, mas a meta tem um responsável.
- Projetos e atividades. O que move o indicador: a revisão da sinalização, o aviso de voo no celular, o treinamento do balcão.
- Fonte do dado. De onde vem o número, e com que frequência ele chega sem alguém digitar.
O exemplo não é por acaso. A informação de voo ganhou peso com a Resolução ANAC nº 813/2026, e a nota da informação de voo fica com o aeroporto, mesmo quando a obrigação é da companhia.
Quem trabalha com OKR (objetivos e resultados-chave) reconhece a estrutura: o objetivo é qualitativo, e cada resultado-chave é um número com prazo. Na gestão de metas, o nome do método importa menos que três regras: a meta tem número, tem prazo e tem dono.
Metas por área: quem responde pelo quê
Os objetivos de um aeroporto atravessam as áreas. Um ponto de partida prático é o que cada área controla:
- Operações: o tempo de fila na inspeção de segurança, o uso das pontes de embarque, os indicadores de processo do contrato.
- Manutenção: a disponibilidade de elevadores, escadas e esteiras rolantes, o conforto térmico, os chamados resolvidos no prazo.
- Comercial: a receita não tarifária, a ocupação das áreas comerciais e a relação entre preço e qualidade da alimentação, que a pesquisa do contrato também mede.
- Comunicação e marketing: a informação ao passageiro no terminal e nos canais digitais.
- Atendimento e ouvidoria: o prazo de resposta das manifestações e os assuntos que se repetem.
- Diretoria e qualidade: o Fator Q, o PQS e o plano de ação anual.
Indicador que depende de várias áreas, como a facilidade de encontrar o caminho no terminal, precisa de um dono e das contribuições de cada área por escrito. Sem isso, cada área acha que a meta é da outra.
Os erros que travam o planejamento estratégico em aeroportos
- A planilha como sistema. Cada área com a sua versão, consolidada à mão para a reunião. O número que a diretoria vê já envelheceu, e ninguém sabe qual versão vale.
- A meta sem dono. "Melhorar a satisfação", atribuída a várias áreas, é uma meta de ninguém.
- A medição manual. Quando o andamento depende de alguém copiar números de outros sistemas, a meta se atualiza quando sobra tempo, e cada área mede do seu jeito.
- A meta que não conversa com o contrato. A área cumpre a meta interna e o IQS cai, porque as duas medem coisas diferentes.
- O acompanhamento só no fim do ano. No contrato do bloco SP-MS-PA-MG, o agravamento do Fator Q depende de quantos meses o indicador ficou abaixo do padrão. Quem olha só no fechamento descobre o problema quando ele já custou.
- Metas demais. Uma lista longa dilui a atenção. Poucas metas por área, ligadas aos objetivos, são acompanhadas de verdade.
A rotina de acompanhamento
O plano vive na rotina, não no documento. Uma cadência simples:
- Toda semana, na área. O dono olha o indicador, os projetos e as atividades da meta e registra o que mudou.
- Todo mês, na diretoria. O IQS do mês, as metas em atenção e os projetos atrasados. A reunião começa pelo que está fora do padrão, e cada dono diz o próximo passo.
- Todo trimestre. Revisar as metas do ciclo. Ajustar o plano faz parte do trabalho; trocar a régua no meio do caminho, não.
- Todo ano. Fechar o ciclo, comparar com o setor (o painel de IQS da ANAC mostra os resultados dos aeroportos concedidos) e montar o próximo. No mesmo contrato, o plano de ação anual vai à ANAC em dezembro e precisa estar implantado até o fim de julho seguinte: um marco natural para o calendário de metas.
Na reunião mensal, a pergunta muda. Em vez de "qual é o número?", que já deveria estar no painel, a diretoria pergunta "o que vamos fazer?". É aí que o planejamento vira gestão.
Metas e objetivos no Airport+
No Airport+ OPS, o painel da equipe do aeroporto, o módulo Metas e objetivos organiza esse desdobramento. Os objetivos do ano e do trimestre viram metas por área, cada uma com responsável, prazo e indicador. O andamento vem dos dados que os módulos do Airport+ já registram, como as notas das Pesquisas, a pontualidade em Voos e Notificações e os indicadores do IQS, sem planilha no meio. Quando a meta depende de um número de fora, a equipe registra no painel.
Cada meta mostra os projetos e as atividades que a movem. Em Projetos, a carteira do aeroporto fica numa lista só, e cada projeto aponta a meta que ajuda a cumprir. O Desempenho reúne passageiros, pontualidade, satisfação e Fator Q num painel, com a comparação contra a semana e o mês anteriores. Cada equipe acompanha as suas metas, e a diretoria vê o conjunto.
Se o plano do seu aeroporto ainda mora numa apresentação e em planilhas por área, vale ver como ele fica com cada meta ligada a um dono e aos dados da operação. Para isso, solicite uma demonstração.
Perguntas frequentes
O que é planejamento estratégico em aeroportos?
É o processo em que a diretoria define os objetivos do ciclo (qualidade, receita, satisfação e obrigações do contrato) e os desdobra em metas por área, com dono, prazo e indicador. Num aeroporto concedido, parte desses objetivos já vem do contrato de concessão, como os IQS e o Fator Q. O plano só funciona com uma rotina de acompanhamento ao longo do ano.
Como fazer o desdobramento de metas por área?
Parta de cada objetivo, escolha o indicador que mostra se ele está acontecendo e defina a meta com valor e prazo. Depois, dê a cada meta um dono e ligue a ela os projetos e as atividades que a movem. Quando o indicador depende de várias áreas, registre o dono e a contribuição de cada uma.
OKR funciona na gestão de um aeroporto?
Funciona como estrutura: o objetivo é qualitativo, e os resultados-chave são números com prazo. O cuidado é amarrar os resultados-chave aos indicadores que o contrato já mede, para a equipe não perseguir um número interno enquanto o IQS cai. Com OKR ou sem ele, a regra é a mesma: número, prazo e dono.
Fontes
- ANAC, Resolução nº 372, de 15 de dezembro de 2015 (texto compilado: art. 9º, aferição mensal e publicação dos IQS; arts. 33 a 35, Plano e Relatório de Qualidade de Serviço).
- ANAC, Contrato de Concessão nº 002/ANAC/2023, bloco SP-MS-PA-MG, Anexo 2: Plano de Exploração Aeroportuária (item 3.1.2; Apêndice B, itens 8, 19, 57 e 58: Fator Q, falha persistente e Plano de Ação; Tabela 1, IQS que integram o Fator Q).
- ANAC, Painel de Indicadores de Qualidade de Serviço dos aeroportos concedidos.
- ANAC, Resolução nº 813, de 23 de setembro de 2026 (altera a Resolução nº 400 e trata da informação ao passageiro).


